Sunday, 6 November 2011

«Scarliga merluss che l'è minga il to uss»

Pode ser bastante frustrante comprar peixe muito fresco e a bom preço em Veneza e depois chegar a Milão, onde até gosto menos de estar, e ver peixe muito pior, muito mais caro e em muito menor variedade. Por exemplo o preço do quilo do robalo de mar em Veneza é de 19 euros e aqui os dois tristes  robalos pescados custavam 45 euros/quilo. O mesmo com as douradas. Para além de caro, também havia pouca variedade: para além dos já citados robalos e douradas, havia lulas, salmão, peixe galo e uns naselli, que foi o que acabei por comprar. Naselli é o nome que se dá às pescadas pequenas e foi por isso que eu as comprei, porque achei que seriam indicados para fazer pescadinhas de rabo na boca.
Contudo em geral em Itália a pescada chama-se merluzzo e já uma vez escrevi um post sobre a confusão que por cá há entre diferentes tipos de peixe da mesma família.
Seja como for, em Milão já é uma sorte encontrar sítios onde comprar peixe fresco, já que estou no meio das montanhas, e a coisa mais curiosa é que há uma expressão em meneghino (ou seja em dialecto milanês) que usa o termo pescada (merluzzo) e que é: «scarliga merluss che l'è minga il to uss», que significa vai-te embora pescada (merluss) que este não é um sítio para ti, e que é muito simplesmente uma forma de mandar alguém embora.  
Pois dialecto ou não eu lá comprei os naselli e quando cheguei a casa consultei o conselheiro culinário (a minha mãe), que me disse que as pescadinhas (os tais naselli) eram demasiado grandes para fazer de rabo na boca e demasiado pequenas para fazer em postas.
Assim sendo, limitei-me a coze-las ao vapor com salsa e louro e para acompanhar decidi fazer um arroz de tomate, que ficou muito bom.
Piquei uma cebola pequena (eu usei uma cebola vermelha) e um dente de alho e deixei refogar bem em azeite. Depois juntei dois tomates cuore di bue pequenos e um bocadinho de concentrado de tomate porque nesta altura os tomates já não são bons como no verão. Juntei uma pitada de açucar e quando o tomate estava já bastante desfeito juntei um copo pequeno de arroz (eu usei carnaroli que era o que tinha cá em casa, acho que não se arranja arroz carolino em Itália) e misturei bem com o tomate. Depois juntei um bocadinho mais do dobro da àgua a ferver, sal e deixei cozer com a tampa a metade.
Nunca sei bem como é que se deve deixar a tampa com o arroz, porque com o risotto, que é o que eu sei fazer melhor,  não se usa a tampa porque se deve mexer o tempo todo.
Quando já estava pronto servi com salsa picada por cima, mas acho que fica melhor sem.

1 comments:

Paulo said...

Olá, pois o preço do Robalo a 19 aéreos é precisamente o mesmo que pagamos aqui no Mercado de Alvalade. A única diferença deve ser que este nosso robalo vem do Atlântico (já naturalmente salgado) e esse sai de águas do Mediterrâneo (boas para banhos mas más para emprestarem sabor ao peixe). Quanto ao arroz, eu só o tapo quando faço arroz de polvo, de resto deixo sempre o arroz respirar a plenos pulmões para ir controlando a quantidade de líquido e o estado da cozedura. Com tampa, gera-se vapor e sai o arroz mais malandrinho; sem tampa, a água evapora mais depressa e o arroz fica mais solto.